“Tenho um dragão que mora comigo.

Não, isso não é verdade.

Não tenho nenhum dragão. E, ainda que tivesse, ele não moraria comigo nem com ninguém. Para os dragões, nada mais inconcebível que dividir seu espaço - seja com outro dragão, seja com uma pessoa banal feito eu. Ou invulgar, como imagino que os outros devam ser. Eles são solitários, os dragões. Quase tão solitários quanto eu me encontrei, sozinho neste apartamento, depois de sua partida. Digo quase porque, durante aquele tempo em que ele esteve comigo, alimentei a ilusão de que meu isolamento para sempre tinha acabado. E digo ilusão porque, outro dia, numa dessas manhãs áridas da ausência dele, felizmente cada vez menos freqüentes (a aridez, não a ausência), pensei assim: Os homens precisam da ilusão do amor da mesma forma que precisam da ilusão de Deus. Da ilusão do amor para não afundarem no poço horrível da solidão absoluta; da ilusão de Deus, para não se perderem no caos da desordem sem nexo.”

Faço do pensar demasiado um filho querido que admito mimar. Afinal, criei-o. E por isso me sinto no direito de tê-lo. E do alto da minha presunção, sei que não posso deixá-lo tomar decisões. E sempre que o faço na sua presença, talvez pelo relaxamento que me causa, que o deixo sair um pouco e ir brincar com outros pensamentos sem a minha exigência, projeto imediatamente as conseqüências da minha “distração”. Sinto precocemente a dor das fagulhas que sairão de ti nas respostas que vai tecer pra me mostrar que notou, pra deixar claro até que não gostou, para deliciosamente me desafiar.

1 comentários:

Kátia Jenne disse...

Profundo...deverias escrever um livro...tens tanto a dizer...e não penses que eis banal..como dizes acima. Banal é alguém que não tem nada a dizer e quando o diz não significado.