It's too late to apologize
Não, eu não poderia supor que se questionaria dessa maneira. Nem tampouco imaginaria que tomasse tanto gosto pelo controle, pelo simples prazer de observar, se condenando cada vez que esbarra em um julgamento antecipado. Em meus devaneios não consegui chegar ao máximo de visualizar que saberia tão bem fazê-lo. Estrategicamente feito para se divertir. Para brincar.
Às vezes te vejo debruçar sobre um tabuleiro. Peças: é assim que enxerga o novo mundo que buscou. Nutre-se. Lê textos que falam de dragões com cheiros de alecrim e hortelã. Se perde em divagações na frente do espelho. E ainda assim, consegue caminhar tranquilamente, espalhando folhas pela calçada, numa manhã azul de domingo. Flashbacks do seu lado bom.
E acredito, meio desacreditando, buscando um vestígio aqui ou ali, em noites de insônia que me provoca.
Essas manhãs de domingo são o seu mundo real. E seu mundo real conta histórias de tragédias, burocracias, considerações demais, abandonos e desatinos. Lembranças emaranhadas pintando esse quadro em que hoje se debruça. Jogado na cara todos os dias.
Sim, naquela parcela de tempo que reservou para se debruçar sobre seus tabuleiros. Livrar-se da vida real, perder-se na fantasia.
Anda perdendo as razões. Se embrenhando demais em florestas de estrondosas árvores. Te vi até ouvir falar que te contaram sobre vidas passadas misturadas com sentimentalismos.
Perceber a crença nessa fusão foi seu último passo, ou talvez, seu último curvar-se ao jogo que criou.
Deixou de aceitar conversas, passou a acumular informações. Não conta mais segredos, planta sementes. Não esconde mais seus olhos, mostra neles para que lado será seu próximo movimento. Não recua, para para observar, mas aprendeu que se o primeiro passo for igualmente necessário, o segundo já não vale a pena.
Só há uma coisa que te faz parar, mas até isso você aprendeu a controlar.


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